terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vitiligo
À flor da pele


A cor da nossa pele é determinada pela melanina, um pigmento produzido por células especializadas da pele - os melanócitos. A cor da pele depende assim da quantidade e do tipo de melanina que nela estejam presentes, e é das alterações ao nível deste pigmento que resultam as doenças da pigmentação, como o albinismo, o vitiligo, os melasmas e as alterações causadas por lesões da pele.


É também a melanina que determina a cor do cabelo e da íris, e esta depende de factores hormonais e da exposição à luz solar. A exposição ao sol aumenta a produção de melanina como mecanismo de protecção contra a radiação ultravioleta.


Embora a maioria das doenças da pigmentação seja benigna e o seu diagnóstico simples, é essencial excluir o melanoma, assim como os seus precursores, e identificar lesões da pele que sejam manifestações de doenças gerais. O diagnóstico destas doenças passa pela história clínica, pelo exame médico e, sempre que necessário, pela recolha de amostras de pele para estudo em laboratório.


O vitiligo é uma doença em que a perda dos melanócitos produz manchas brancas e lisas na pele. No nosso país, o vitiligo afecta cerca de 1% da população, incindindo de igual forma em homens e mulheres. Em 25 a 50% dos casos, existem já histórias anteriores de vitiligo na família.


Em algumas pessoas surgem apenas uma ou duas manchas, bem delimitadas, e noutras são mais extensas. As manchas são mais evidentes em pessoas que tenham a pigmentação mais escura, e nas áreas da pele afectadas por esta doença os pêlos crescem brancos, uma vez que os folículos pilosos perdem também os melanócitos. O vitiligo pode surgir depois de um trauma físico, ou pode estar associado a doenças como a de Addison, a diabetes, a anemia perniciosa, e também doenças da tiróide.


Um dos factores a ter em conta no que diz respeito ao vitiligo é o grande impacto psicológico que pode ter, uma vez que tem um efeito directo na imagem da pessoa e consequentemente na sua auto-estima.


Winnie Harlow ou Chantelle Brown Young, nome pelo qual pretende ser reconhecida, tem 21 anos, é modelo, e chamou à atenção do mundo inteiro pela sua beleza e pela sua diferença. Tem vitiligo e no seu caso torna-se ainda mais óbvio pelo facto de a sua pele ser escura. “Num mundo onde ser bonita se traduz em perfeição, esta modelo está a fazer a diferença”, escrevia-se no jornal Público, há cerca de dois anos, quando Chantelle se tornou conhecida.


Chantelle tem vitiligo desde os seus quatro anos, quando as suas primeiras manchas apareceram, mas só aos 17 anos falou disso publicamente, com a publicação de um vídeo onde falava sobre a sua doença. Crescer diferente foi bom e mau, uma vez que ouviu as outras crianças chamarem-lhe nomes como zebra e vaca. Chantelle Brown-Young, aos 20 anos, foi a primeira mulher com vitiligo a desfilar para uma marca conhecida internacionalmente - a Desigual. Hoje, apresenta-se no Instagram como porta-voz do vitiligo, posição que já usou anteriormente no liceu onde andou e onde falou a alunos sobre discriminação e bullying por se ser diferente.


No seu vídeo “Vitiligo: A Skin Condition not a Life Changer” - Vitiligo: uma doença de pele e não uma mudança na vida, divulgado em 2011, Chantelle, além da sua beleza, mostra a sua maturidade. “Não temos nada de diferente. É apenas pele”, diz a jovem. “Eu não sou a minha pele. Se um dia a minha pele for toda negra, continuo a ser modelo. Se for toda branca também”, frisou numa entrevista dada ao Guardian.


É uma doença que pode surgir em qualquer idade, mas o seu pico de incidência situa-se entre os vinte e os trinta anos. David Dinis, de 40 anos, tem vitiligo há cerca de 17 anos. “Estranhei ao início, procurei explicações. Todos os médicos me disseram que não era grave, nem havia tratamento eficiente. Talvez o estado de stress de então tenha ajudado, mas depois disso já tive vários e nunca piorou. Em relação aos cuidados a ter, tenho muito cuidado com o sol, isso sim, de resto nada mais”, diz.


Os sítios do corpo onde o aparecimento destas manchas é mais vulgar são as mãos, os pés, os braços, os joelhos, os lábios e ao redor das zonas genitais, da boca, do nariz e dos olhos. E não é possível prever o seu desenvolvimento em cada doente individualmente. As lesões podem ser pequenas e centradas apenas numa parte do corpo como podem dar origem a um vitiligo universal que cobre mais de 50% do corpo. Embora não se conheça cura para o vitiligo, as áreas afectadas por esta doença, se forem pequenas, podem ser camufladas com diversas tintas próprias para o efeito e que ainda duram vários dias, e os filtros solares e os protectores contra a exposição ao sol são essenciais para evitar queimaduras.


Em relação às reacções das pessoas, por vezes vêm ter com ele e dizem-lhe que conheceram este ou aquele projecto mas o vitiligo não é de todo uma coisa má na vida de David. “Como me sinto eu próprio assim, nem fui descobrir”, conta. As reacções que tem por parte das pessoas são positivas, na sua maioria. É interrogado pelas crianças, mais do que pelos adultos, que querem saber o que são afinal de contas aquelas manchas. Só pela positiva, na verdade. As crianças vêm perguntar, querem saber. “Volta e meia reconhecem-me pelas manchas porque me vêm na TV. Há quem me venha dizer que eu podia fazer isto ou aquilo. São realmente amáveis, as reações”, refere.


Julia Kaczorowska vive em Varsóvia, a capital da Polónia, e à medida que vai ficando mais velha vai também gostando mais de viver naquela cidade, embora sinta uma grande ligação com Paris, sítio onde nasceu.


Durante a semana, Julia estuda Jornalismo e Fotografia na Universidade de Varsóvia, e trabalha num escritório para que possa ganhar o seu próprio dinheiro. Para além disso, faz trabalhos de fotografia com dois amigos e juntos criaram um grupo chamado NEBA, cujo site está ainda em construção, mas o trabalho pode ser encontrado no portfolio online de Julia, na plataforma online Behance.


“As primeiras manchas apareceram na minha pele durante as férias, quando eu tinha quatro anos. Primeiro, nos cotovelos e nos joelhos e depois aos poucos e poucos as manchas começaram a espalhar-se. Para uma menina pequenina, da minha idade, alguns sítios brancos no seu corpo não eram um problema, mas para raparigas que acabaram de entrar na puberdade, sim, era. Entre os onze e os treze anos, as manchas preencheram os meus joelhos, os meus cotovelos, as palmas das minhas mãos e a pele à volta dos meus olhos. Eu costumava estar na praia de maneira a que ninguém conseguisse ver a parte da frente das minhas pernas. De qualquer maneira, nunca senti a falta de aceitação ou comportamentos inadequados em relação à minha doença por parte dos meus colegas de escola/amigos. E talvez isso tenha partido de mim, porque eu própria nunca tive nenhuns problemas com as minhas manchas”, conta.


Julia quis contar a sua história e a história de tantas outras pessoas que, tal como ela, têm vitiligo, e viu no seu projecto de curso a oportunidade ideal para o fazer. Wzory: assim se chama. Em poláco, esta palavra tem dois significados. O primeiro tem a ver com padrões, com os vários designs. O segundo significa modelo, no sentido de ser alguém que é olhado pelas outras pessoas como um exemplo a seguir.


“De repente, isso apareceu, começou a tornar-se algo mais comum e especialmente no mundo virtual há muita gente como eu. Fiquei também positivamente surpreendida quando vi o sentido de comunidade que existe entre as pessoas com esta doença. Muitos posts em grupos do Facebook, como o “Vitiligo Pride”, começam com palavras como “Hi my new vitiligo Family", conta.


Com a hashtag #vitiligo no facebook, em fóruns, no instagram, etc, encontram-se várias pessoas com vitiligo que, segundo Julia, “não postam isso para mostrar quão deprimidos são e o quão mal estão com isso. Eles querem dizer às outras pessoas “olhem para mim, eu sou especial, eu sou bonito”. Na Polónia, as pessoas são na sua maioria mais queixosas. Os grupos estão cheios de pessoas a perguntar como é que se pode cobrir os espaços, se conhecemos alguns tratamentos, enquanto nos grupos europeus e mesmo globais as pessoas são muito mais cheias de energia positiva.


Sobre o projecto e todo o processo de chegar àquelas pessoas Julia explica que as pessoas que fotografou não eram suas conhecidas. “Para ser sincera antes de eu começar este projecto, eu não conhecia ninguém que tivesse vitiligo. Então decidi procurar pessoas que se tivesse habituado à sua aparência, falar com elas, e fotografá-las, aqui e também fora da Polónia”, diz. Com a ajuda dos media, conseguiu chegar a imensas pessoas com as quais pôde falar. Criou o evento no Facebook e como região para delimitar o seu projecto marcou a Europa inteira. De repente, começou a receber imensas mensagens. Pessoas com vitiligo começaram a entrar em contacto com ela, mesmo sendo de diferentes zonas da Polónia, mas também dos EUA, da Inglaterra, da Suécia e até do Paquistão. Cada uma das doze pessoas fotografadas, independentemente da sua nacionalidade, género e idade, pode ser tida como um “role model” para aquelas pessoas que têm a mesma doença mas que, por outro lado, não sabem lidar com a sua doença, não sabem lidar com a sua condição. “No meu trabalho, não me foquei nas experiências dramáticas do vitiligo, mas sim nas pessoas que estavam numa certa parte do caminho para se aceitarem a si próprias mas hoje tratam os seus pontos e as suas manchas como algo natural, ou até consideram que isso é o que as faz especiais e que de certa forma embelezam os seus corpos”, explica.


Julia queria conhecer pessoas que aceitam as suas manchas, queria conhecer as suas histórias. Mas quando deu por si já estava a receber cartas de mulheres que se sentiram encorajadas pelo seu trabalho para usar fatos de banho no verão, em vez de se esconderem. Mas não se ficou por aqui. “Uma rapariga pequenina que eu fotografei está agora num acampamento e, com confiança, explica o vitiligo para as outras crianças quando eles vêem a sua pele. É qualquer coisa de espectacular. Essas são coisas das quais eu não estava à espera, foram grandes surpresas que fazem este projecto valer cada esforço feito. Quando eu olho para os media, quando eu falo com pessoas com vitiligo, eu posso descrever isso como sendo “uma grande tribo”, independentemente do sexo, da idade, da raça, do país de origem”, refere.


Devido a incompatibilidades financeiras, Julia não conseguiu fotografar todas as pessoas que se ofereceram para fazer parte deste seu projecto, mas diz que gostava de continuar:“Tenho imensas pessoas que querem ser uma parte disto, só tenho de encontrar e conseguir ter mais tempo e dinheiro para o fazer”.


Embora tenha recebido um feedback muito positivo por parte das pessoas, tenham sido elas parte integrante do projecto ou não, Julia diz: “eu sou realista, eu sei que não vou mudar o mundo, mas se as minhas imagens tiverem sucesso e conseguirem chegar às pessoas de maneira a que se mudem mentalidades, e uma pessoa não evite apertar a mão a uma pessoa com vitiligo, então fui bem sucedida”.

Inês Antunes Malta
Artigo sobre jornalismo de guerra + aula com Alexandra Lucas Coelho


O jornalismo de guerra é uma parte do jornalismo que vai buscar uma determinada parte, um determinado conjunto de características que o jornalista tem ou deve ter em si. O jornalismo de guerra, segundo Francisco Sena Santos, prende-se sobretudo com a “profundidade do contar a história” porque “enquanto o repórter vai ver um problema com uma árvore, por exemplo, o grande repórter olha para o conjunto todo, tenta perceber a origem do problema”.


Na preparação de uma reportagem em zonas de conflito, há uma série de passos a seguir, uma série de coisas que devemos fazer e preparar antes de ir, e tudo isto varia consoante as circunstâncias em que decidamos ir. A primeira. Onde e quando ir. Se escolhermos ir antes, por iniciativa própria, teremos de escolher uma zona onde se prevê que possa vir a existir um conflito. Pode também ser numa zona onde ele esteja a acontecer ou então uma zona depois de o pior já ter passado e então recolhe-se o que ficou, fala-se das consequências que teve e do que está a acontecer agora que o pior já passou.


A segunda. Como ir. Se formos sozinhos, é preciso organizar cooperação com outros jornalistas a fim de dividir despesas e riscos, desenvolvendo o espírito de entreajuda entre todos. É preciso ter bem presente a nossa liberdade, a nossa independência, mas também a procura de ajuda para que o risco seja menor. Há também a hipótese de ir integrado numa unidade militar, mas nesse caso, por motivos de segurança, o jornalista não pode dizer exactamente onde está nem quais são os planos, de ir à boleia: neste caso, o jornalista vai com uma organização não governamental e pode sempre optar por fazer trabalho local em conjunto com esta organização, ou ainda de ir perante um convite. Esta é uma situação com muito menos liberdade, uma vez que o jornalista só vai aos locais que o guia lhe mostra.


A jornalista Alexandra Lucas Coelho esteve em Jerusalém em 2005 e explica que quando decidiu isso teve de falar com o jornal e fazer a sua proposta: “eu tenho de convencê-los de que aquilo é jornalisticamente interessante. Tive de construir um caso, onde é que vou, porque é que vou, o que é que vai ser interessante para o jornal e porquê. Fui para um quarto alugado em Jerusalém, 500 dólares por mês, e nestas alturas é tudo muito complexo, sobretudo por termos de gerir as histórias que nós queremos fazer e aquelas que o jornal sugere e acha que são importantes que façamos”.


Na realização deste tipo de trabalho, o jornalista pode ir para o sítio em questão ainda sob diversas condições, isto é, consoante o contrato que estabeleceu, ou não, em conjunto com a empresa para a qual trabalha. Se for como enviado especial, o jornalista trabalha para um meio de comunicação e este envia-o para uma zona de guerra, onde há interesse que toda essa situação seja coberta por um repórter que vai só para esse efeito. Nestes casos, o jornalista vai ao serviço dessa mesma empresa, e é esta que paga as despesas, trata da logística e também do equipamento que seja necessário o jornalista levar consigo. “On Assignment”: neste tipo de situações, o jornalista freelancer vai com um contrato com uma empresa para a qual trabalhe para fazer uma missão específica, para fazer um determinado trabalho, e funciona como se fosse um enviado especial. Aqui, o jornalista tem a responsabilidade de exclusividade, ao contrário de situações em que o jornalista vai “À peça”, vai por sua conta e vontade e depois vende o trabalho. Há ainda o tipo de contrato “sem rede”, no qual o jornalista arrisca e depois tenta vender o trabalho ou então recolhe o seu material de modo a que depois consiga fazer um trabalho maior, como escrever um livro sobre o assunto, por exemplo.


No que diz respeito ao equipamento a levar numa viagem deste cariz, há que levar o mínimo possível: mochila, bloco de notas, gravador, smartphone, telemóvel desbloqueado (para usar um cartão de lá), carregadores e adaptadores, kindle (para ler material que possa interessar para o trabalho), canivete, sapatilhas, pouca roupa e saco-cama. Pode ainda ser necessário: telefone de satélite, máscara de gás, capacete, e equipamento para armas químicas e biológicas.


É importante reunir o máximo de informação que se consiga sobre o local para onde vamos, para o conflito que vamos enfrentar, para tudo o que possamos encontrar. Devemos manter várias possibilidades em aberto para que depois não sejamos surpreendidos, embora muitas das vezes isto são situações que acontecem muito depressa, é necessário ir logo, não deixando tempo sequer para toda esta preparação. Para além das informações sobre o sítio, os contactos também são muito importantes, tentar arranjar contactos que no local que nos levem às pessoas e aos sítios certos, afim de conseguirmos fazer o nosso trabalho sem impedimentos, ou sem menos impedimentos, neste sentido.


Ler, ver filmes ou ouvir música própria do sítio onde estamos para conseguirmos compreender melhor o espírito do sítio onde estamos, compreender melhor o que nos rodeia, tentar, através destes instrumentos, compreender o que esse sítio nos diz. Porque também não basta estar lá para compreender o sítio e para compreender o que se passa. É muito mais complexo. Vai muito além disso.


“É preciso preparação. Sobretudo porque quanto mais perigoso, quanto mais códigos existirem ali, que possam de alguma maneira pôr em risco a nossa vida e a vida de outras pessoas, mais nós nos temos de preparar, no sentido em que se virmos certa coisa sejamos capazes de a decifrar”, diz Alexandra Lucas Coelho.


Não conseguindo certamente chegar a todos, o importante é que passe uma versão geral do que está a acontecer, não esquecendo mesmo todos os outros que nela não estão incluídas. Ir aos locais, procurar histórias, escrevê-las, e sobretudo guardá-las. Tendo sempre o cuidado e a atenção de que certas informações podem não ser verdadeiras, certas pessoas podem não ser bem intencionadas e que o jornalista pode correr perigo, é também importante que não se tome partidos. Que se respeite e se ouça cada uma das pessoas, cada uma das histórias, e que se respeite também o direito à privacidade na fonte, não divulgando informações que possam pôr alguém em perigo, ou até mesmo nós próprios.


A comunicação é feita através de telemóvel, da internet ou então, quando esta falha, através do satélite. Quando estamos em plena guerra, os transportes sobem de preço de uma forma completamente descontrolada, e neste caso a solução é encontrar outros jornalistas com quem possamos partilhar os carros; o alojamento também; os tradutores são necessários em zonas onde não seja possível encontrar alguém que fale alguma língua em comum com o jornalista; os guias e os fixers, pessoas do local que levam o jornalista até aos locais e às pessoas.


Alexandra Lucas Coelho conta como foi a sua primeira vez em cenário de guerra. Tinha 22 anos e estava de férias em Moscovo com o namorado. Corria o mês de agosto de 1991 e acabara de haver um golpe de estado. “Às 5h30 da manhã toca o telefone e era o Sena Santos a dizer que tinha havido um golpe de estado, o Gorbachev tinha sido raptado e portanto era altura de ir trabalhar. Eu tinha caneta, papel e um telefone. Punha o gravador no telefone e o som era gravado lá em Lisboa, assim como o texto, que era lido e também gravado do outro lado, e era assim que se fazia reportagem. E eu fui falando com as pessoas, fui cobrindo as manifestações, gravando os sons e a minha primeira reportagem foi assim por acaso”, conta.


Uma vez no local, há que não esquecer o que nos levou até lá. É importante contar histórias, procurá-las para que possam ser contadas e depois então encontrar a melhor maneira para o fazer. Os clássicos, sim, no hospital, uma pessoa que perdeu um familiar, mas também casos concretos que ajudem a contar a história do que aconteceu no geral. Ir à casa das pessoas é uma alternativa, por exemplo. Esta é uma parte importante da história que tem de ser contada, incluindo os casos particulares, o cenário em geral, mas também uma pequena história do local, da informação militar e das questões políticas e estratégicas subjacentes, às pessoas que do outro lado vão ouvi-la, seja do outro lado do ecrã, do outro lado das folhas de papel ou do outro lado das ondas sonoras.

Inês Antunes Malta
Artigo de opinião
O futuro do jornalismo em papel vs o futuro do jornalismo digital

Futuro do jornalismo em Portugal tendo em conta dos avanços da tecnologia

Com o crescimento e afirmação do jornalismo digital ao longo do tempo, o jornalismo feito em papel perdeu espaço. As vendas de jornais em papel diminuiu, porque o digital se tornou muito mais. O acto de nos dirigirmos a uma banca de jornais logo de manhã para comprar o nosso jornal, para o lermos no caminho de comboio até ao trabalho ou para o lermos numa das nossas pausas, foi substituído pelo deslizar dos nossos dedos no ecrã do nosso telemóvel ou pelo scroll nas páginas dos nossos computadores. O digital invadiu as nossas vidas. Poucas são as pessoas que vêem as suas vidas de forma diferente daquela de que aqui falo. As pessoas estão cada vez mais dependentes das notícias actualizadas ao minuto, das coisas rápidas, que estão logo ali à frente, sem se preciso muito. Quem demora mais, muita das vezes, já vem tarde. O digital tem si as notícias transmitidas mais facilmente, sem nos podermos esquecer que nem por isso isso é sinónimo de notícias melhor transmitidas. Há que ter também isso em conta. O digital tem em si a confusão entre “cidadão em comum” e “jornalista”, uma vez que um cidadão comum pode servir de jornalista, tirando uma fotografia de algo que aconteceu, um acontecimento sobre o qual se estão a aceitar fotografias amadoras para o ilustrar, por exemplo. Seja na televisão ou no site, o que conta nestes casos é a imagem. O poder da imagem é o poder do digital. Um artigo que num jornal dito normal tenha uma fotografia para o ilustrar, num jornal online pode fazer-se uma galeria de quinze ou vinte fotografias para ilustrar o mesmo artigo.

O mesmo jornal em versão escrita ou em versão digital concentra em si valores completamente distantes. Ainda assim, aquilo que está disponível online, seja em que tipo de formato for, chega até nós de uma maneira muito mais rápida, muito mais directa e, embora o espaço alcançado até agora pelo digital seja já muito grande, o papel ainda não desapareceu e creio que nem desaparecerá. Perante as vantagens e poderes do digital, cabe aos jornais criar novas soluções em papel para que estas ganhem de novo o seu poder, regressem aos seus números e possam conviver, de uma forma boa, com o digital. Resta só que se encontre a forma certa de fazer a mudança necessária. Há leitores do digital apenas. Há leitores do papel apenas. Há leitores que lêem ambos e, infelizmente, há quem não leia nem um nem outro. Há espaço para ambos. Há espaço para todos.


Inês Antunes Malta
À conversa com José Manuel Rosendo

“Se as pessoas estiverem sentadas no chão, eu sento-me também com elas, e só depois é que tento chegar à conversa com elas. Se não percebermos as pessoas, não percebemos o resto”

O jornalismo de guerra é uma parte do jornalismo que vai buscar uma determinada parte, um determinado conjunto de características que o jornalista tem ou deve ter em si. O jornalismo de guerra, segundo Francisco Sena Santos, prende-se sobretudo com a “profundidade do contar a história” porque “enquanto o repórter vai ver um problema com uma árvore, por exemplo, o grande repórter olha para o conjunto todo, tenta perceber a origem do problema”.

Natural do Pinhal Novo, José Manuel Rosendo é um dos exemplos de quem faz este tipo de jornalismo, de quem tenta acompanhar o que se passa em sítios de guerra e compreender as coisas a partir das pessoas. Foi na rádio local desta localidade pertencente ao concelho de Palmela que começou a sua carreira. Frequentou um curso de Jornalismo no Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, e em 1993 entrou para a Rádio Press. Ainda no mesmo ano, deixou este trabalho e começou a trabalhar na Antena 1. Hoje, é na rádio que faz a cobertura de vários acontecimentos a nível internacional e assina várias reportagens feitas em zonas de conflito, fazendo também colaborações esporádicas com a Agência Lusa e com o Jornal de Notícias.

Sendo para Francisco Sena Santos “um grande contador de histórias”, José Manuel Rosendo tem em si a especial característica de querer ir para a guerra, de querer ir contar a guerra, auto-propondo-se muitas vezes para fazer esses trabalhos. Em 2015, esteve presente na crise dos refugiados nos Balcãs, Macedónia e na Ucrânia e também na fronteira entre a Turquia e o Iraque, zona de conflito, onde esteve duas semanas, e para onde foi por sua vontade e proposta.

Tendo estado presente em várias zonas de conflito, em várias zonas de guerra, são as várias as coisas, várias as experiências e várias as histórias que José Manuel Rosendo tem para contar, sem esquecer o seu trabalho enquanto jornalista. Há sítios na guerra onde o controlo é demasiado apertado e nos quais, tal como disse, “é preciso estar lá mais tempo para poder obter determinadas autorizações para ir a determinados sítios, ou seja, o repórter vai com o tempo contado e não pode estar três dias à espera de uma autorização”.

Nestas situações específicas, não basta que o jornalista tenha consigo o tradutor mas também os “fixers”, que são contactos que o jornalista tem no terreno, e que até podem ser jornalistas locais, que indicam ao jornalista as pessoas com quem este pode falar para conseguir determinada informação ou chegar até determinado objectivo.

Em relação ao Estado Islâmico, José Rosendo não considera que seja uma guerra religiosa, considera que no fundo há ali uma intensão política. A religião é apenas uma arma, a que está mais à mão, porque poderia ser outra qualquer.  “Sabemos muito pouco do Estado Islâmico, não sabemos quantos são, não sabemos que tipo de armas é que têm. Esta guerra é muito interessante porque tem imensos interesses cruzados, e a religião é apenas um instrumento para desculpar estes confrontos”, diz.  Nas viagens que faz, há sempre uma lista de coisas que não lhe pode faltar: os mapas da região para onde vai, os últimos artigos de sites que segue sobre a situação, dois gravadores, muitas pilhas, por ir muitas vezes para sítios onde não há corrente eléctrica, um satélite, e um colete de protecção.

Vários sítios onde esteve desapareceram nos dias a seguir e, em relação a estas situações, o jornalista considera que “é tudo uma questão de estar na hora certa ou na hora errada no local certo ou no local errado”.

José Manuel Rosendo estava no local quando a 12 de Novembro se deu o primeiro grande atentado da Al-Qaeda, em Nassiria, no sul do Iraque. Depois do atentado, logo no dia a seguir, é assaltado e raptado. “Não há nada a fazer quando nos param o carro e há outros carros que nos trancam com kalashnikovs do lado de fora. Parou, não é? Não há heróis. Passa tudo e mais alguma coisa pela cabeça. Há ali uma necessidade de manter o sangue frio. Não sei se é a própria adrenalina que nos ajuda a manter esse sangue frio mas é preciso nunca entrar em desespero. É preciso não hostilizar, é preciso tentar estabelecer pontos de ligação”, conta. Até hoje, diz que ainda não sabe como conseguiu libertar-se e sair daquela situação mas está “convencido de que o meu guia conseguiu convencê-los de que eu era um jornalista português por quem ninguém daria dinheiro”.

Em relação à preparação física que um jornalista de guerra tem de ter para se defender, José Rosendo considera que, embora perante uma arma não haja nada a fazer, há que ter a preparação física adequada, para aumentar a resistência, por exemplo, porque “fazer reportagem nestes sítios é fisicamente muito exigente”.

“Nós hoje vigiamos o poder ou somos instrumentos desse mesmo poder? Eu quando vejo as agendas fico preocupado porque a maioria dos pontos de agenda é acompanhamento de ministros, actos oficiais. Afinal o que andamos a fazer? Isso leva-nos a não ter recursos e espaço em antena para abordar outro tipo de questões mais importantes. Se dedicássemos um décimo do tempo que discutimos futebol a debater outras questões não teríamos ficado tão assustados quando os refugiados nos bateram à porta”. José Manuel Rosendo esteve na fronteira da Grécia com a Macedónia,  no campo de refugiados, em Agosto e Setembro deste ano, e lá a relação com o jornalista não existia. Havia muita tensão e pouco espaço para conversar com os jornalistas. “Os jornalistas têm tendência para se atrapalharem uns aos outros e os silêncios, muitas vezes, também são reveladores, são grandes respostas”, diz.

José Rosendo centra muito o jornalismo que faz nas pessoas, sobretudo na relação que estabelece com as pessoas. Há que perceber as pessoas, perder o devido tempo com elas, não chegar e impôr logo a presença do jornalista, que no fundo é um estranho. Há que ir com calma. “Se as pessoas estiverem sentadas no chão, eu sento-me também com elas, e só depois é que tento chegar à conversa com elas. Se não percebermos as pessoas, não percebemos o resto”.

Independentemente do tipo de jornalismo que se faz, considera que“as regras do jornalismo são iguais em todo o lado”. Há que não enganar o público que está indefeso perante a informação que lhe chega, seja de uma zona de conflito, ou de outra situação qualquer, porque “quem nos está a ver acredita em nós e eu preciso que as pessoas acreditem em mim, e para isso tenho de manter a minha credibilidade intacta”, diz.

Janeiro de 2016
Inês Antunes Malta
“Machismo também é terrorismo”, “O silêncio mata”, e “Pelo fim da violência, quebra o silêncio” foram algumas das palavras de ordem da 5ª Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, que teve lugar no passado dia 25 de Novembro de 2015, dia em que se assinala o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, instituído há 16 anos pelas Nações Unidas.


O Terreiro do Paço foi o ponto de encontro, o ponto de partida da 5ª Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, que pouco depois das 18h partiria rumo ao Rossio




No mesmo dia, foi também realizada uma marcha pelo mesmo motivo mais a norte, em Coimbra, na Praça 8 de Maio, pelas 16h.


Junto à Estátua de D.José, na Praça do Comércio, estenderam-se os cartazes e trocaram-se ideias, antes de a marcha começar.


A marcha foi antecedida da representação cénica de episódios de violência doméstica por parte de vários jovens, junto à estátua de D. José, no centro da Praça do Comércio.


Um dos cartazes presentes na Marcha, evocando o fim da violência machista.

“O silêncio mata” foi uma das frases de ordem desta marcha, que tinha como principal objectivo levar todos a quebrar o silêncio, denunciar todos os casos de violência e, por conseguinte, resolver os mesmos. A Amnistia Internacional, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) e a Plataforma Maria Capaz são quatro das quinze instituições que se associaram a esta associativa.


Esta iniciativa insere-se na campanha internacional “16 dias de Activismo contra a Violência de género”, que se realiza entre 25 de Novembro e 10 de Dezembro, e que acontece anualmente em mais de 140 países.




Maria Capaz, plataforma feminista que se associou a esta causa, representada na 5ª Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres. Várias foram as figuras públicas que se associaram a esta causa e marcaram presença na marcha.




As várias instituições reunidas no Rossio, ponto de chegada da marcha, entre as quais a Maria Capaz e a UMAR. “Nem mais uma mulher assassinada”, lema defendido pelo Bloco de Esquerda, também presente na marcha, partido no qual o combate à violência contra as mulheres é uma das suas principais preocupações sociais. Este ano, já foram assassinadas às mãos dos maridos ou companheiros 27 mulheres. Menos 14 face ao mesmo período no ano passado, de acordo com os dados divulgados pelo Observatório de Mulheres Assassinadas.

Para além disso, no mesmo período de tempo, outras 33 mulheres foram vítimas de tentativa de homicídio, como revela a União de Mulheres Alternativa e Resposta.
“Neste 25 de Novembro, as organizações subscritoras convidam as demais organizações e toda a sociedade à ação pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e a quebrar o silêncio em torno de todas as formas de violência. Porque juntas e juntos, quebramos o silêncio exigindo melhor justiça, mais oportunidades e a igualdade” Leitura do Manifesto por Rita Ferro Rodrigues, pode ser lido na integra aqui.
Chocolataria Equador
Um sonho que resultou em chocolate

Sombrinhas, cacos, bombons, trufas, pequenos snacks e tabletes de chocolate. Tudo isto e muito mais pode ser encontrado nas prateleiras da Chocolataria Equador. Com uma loja em Lisboa e três no Porto, esta chocolataria nasceu de um sonho. Celestino e Teresa desejavam criar o seu próprio negócio, juntando a sua formação e o seu gosto pelas artes ao chocolate.

A Chocolataria Equador começou há 7 anos, no Porto. “A história da chocolataria em si nasceu de um sonho que os fundadores, o Celestino Fonseca e a Teresa Almeida, tinham. Eles são um casal do Porto e, sendo ambos formados em Artes, resolveram aliar a sua profissão a um sonho que sempre tiveram: abrir a sua própria chocolataria.”, diz Concha Valente, a directora da Chocolataria Equador.

Foi após uma visita a uma fábrica de chocolate no Porto que começaram a dar os primeiros passos na realização do seu sonho e começaram então todo o processo de criação. Nos primeiros anos, era esta fábrica à qual realizaram a visita que os fornecia mas hoje em dia a Chocolataria Equador já tem a sua própria fábrica, situada em Leça do Balio. A ideia inicial foi assim expandindo-se e conta hoje com 4 lojas no total - 3 no Porto e, por enquanto, 1 em Lisboa.  “Tudo é produzido na nossa fábrica”, garante Concha Valente. “Temos o nosso mestre chocolateiro - Miguel Tedim, que cria os bombons, as trufas, e até os ovos da páscoa, agora para esta altura especial do ano, e depois é distribuído para cada chocolataria”, acrescenta.

“As nossas tabletes de chocolate são produzidas e embaladas artesanalmente. Em cada um colocamos toda a nossa experiência e dedicação. As combinações são variadas e surpreendentes. Com diferentes percentagens de cacau e de várias origens, cada combinação surpreende à vista e ao paladar.”, pode ler-se num dos quadros presentes no número 72 da Rua da Misericórdia, em Lisboa, inaugurado no dia 13 de Outubro de 2013. O chocolate é artesanalmente confeccionado a partir das mais conceituadas origens do cacau, comprado em várias partes do mundo: no Equador, no Brasil, em Cuba, em Madagáscar - e posteriormente transformado em chocolate. “O nome da chocolataria justifica-se precisamente pelo facto de os principais fornecedores de cacau se situarem na linha do Equador”, explica Concha.

Sendo uma área à qual Celestino e Teresa estão intimamente ligados, tudo começou pelo grafismo, pela imagem em si. As imagens das embalagens surgiram todas a partir de desenhos feitos por eles. A história das imagens é também uma história que vale a pena ser conhecida. Ideias e aventuras transpostas para um desenho, para uma futura embalagem, para uma futura imagem presente nos quadros desta casa. “Todos os desenhos das embalagens se baseiam na história de uma família que costuma passar férias na zona Norte de Portugal. Com as suas aventuras imaginárias, nessas mesmas férias, vão dando vida a estes pacotes, embalagens, cartões de visita. Temos por exemplo o caso das framboesas. Se eles vão apanhar framboesas e a entregam ao chocolateiro, dão-lhe uma nova ideia: a de criar um chocolate que contenha framboesas e daí vai nascer um chocolate com framboesas e também um desenho que ilustre isso”, conta Concha.

Aberta todos os dias, das 11h00 às 20h00, e situada no Eixo Chiado-Príncipe Real, na loja de Lisboa, é bastante acentuada a diferença entre as visitas à loja feitas por portugueses e por estrangeiros. “A maior parte das pessoas que visitam a loja são turistas e, quando falo em maior parte, estou a falar de 95% das pessoas”, refere Concha. “O chocolate negro, com o qual são feitos muitos dos nossos produtos não é ainda muito bem aceite pelos portugueses. Ainda não estão habituados ao sabor dele, embora já se note a diferença na aceitação relativamente a produtos que contenham este tipo de chocolate mas em menores quantidades. Por exemplo, as trufas têm 60% de chocolate negro e o restante é o recheio, e isso os portugueses já vão comprando”, justifica.

Para além do chocolate, parte do espaço é também dedicado ao café, com um cantinho reservado para o efeito, onde se pode sentar um bocadinho para tomar um café, e aos franceses macarons, que fazem as delicias dos clientes, pelas suas cores e também pelos seus sabores. A Chocolataria Equador é, assim, um espaço, uma loja, uma marca que nasceu de um sonho, tornou-se um êxito na realidade e conta agora com novas ideias e novos planos para o futuro.

Abril de 2015
Inês Antunes Malta
“Já Sinto”
um projecto que quer, acima de tudo, fazer sentir

Reportagem


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O projecto “Já Sinto” nasceu das ideias, das vontades e das fotografias que Filipa Jacinto teve, ganhou e tirou aquando da sua estadia no Rio de Janeiro. De regresso a Lisboa, decidiu pôr tudo isto e muito mais em prática, juntando os seus conhecimentos em design e tipografia ao seu gosto pela fotografia, a fim de recuperar valores perdidos e os transmitir ao maior número de pessoas. Nos dias 24 e 25 de Outubro, Filipa expôs o seu trabalho, em colaboração com o Projecto Travessa da Ermida, na Travessa do Marta Pinto, em Lisboa.





Filipa Jacinto licenciou-se em Design no IADE, tirou um curso de Design de Comunicação na PUC do Rio de Janeiro, para onde foi em intercâmbio e onde teve o seu primeiro contacto com a arte urbana e no início de 2015, com o seu regresso a Lisboa, terminou o Mestrado em Design e Cultura Visual no IADE. 

Foi no segundo ano de Mestrado em Design e Cultura Visual no IADE que Filipa Jacinto decidiu que queria ir para fora do país, participar num projecto de Intercâmbio, uma vez que precisava de ir para fora, conhecer novas coisas, novas pessoas e novos lugares a fim de conseguir encontrar a ideia certa para o projecto da sua tese. A sorte, ou talvez o destino, levou-a até ao Rio de Janeiro. “Eles têm um design muito mais particular do que nós, são mais ligados às artes plásticas, gostam mais das coisas manuais, um pouco como eu. Lá comecei a fazer umas disciplinas mais alternativas. Fiz umas quantas experiências em design muito diferentes”, conta.

Para além das mais valias que a cidade brasileira lhe trouxe a nível do Design, no Rio de Janeiro, Filipa começou a fotografar aquelas que seriam o ponto de partida do seu projecto. “A primeira frase que fotografei foi “queria um dia só viver contigo para sempre”. Eu estava no Rio, e não estava a querer vir-me embora, já só faltavam cerca de 4 meses para voltar, e realmente com essa frase parecia que a cidade estava a falar para mim”, diz. A partir daí, começou a fotografar todas essas frases, sendo que inicialmente o fazia apenas turisticamente. Era uma cidade nova e Filipa fotografava tudo o que lhe aparecia à frente, mas estas frases foram chegando e ficando e fazem parte da sua vida até hoje.

“A última frase que eu encontrei no Rio de Janeiro foi “pare aqui, aprecie a vida por um minuto e sorria”, do Oraculoproject. Faltavam três dias para eu voltar para Portugal. Eu até chorei.”. Quando chegou a Portugal, tinha uma mala cheia destas fotografias. O repertório era considerável e Filipa decidiu que queria fazer algo com aquilo, criar um projecto seu. E começou por querer ilustrar as mesmas frases que tinha fotografado, dar-lhes uma nova vida, ao nível da tipografia, uma vez que é uma área na qual Filipa trabalha. “Eu tentei fazer assim: o que é que eu adoro em design? Eu adoro arte, eu adoro tipografia e eu adoro fotografia também. Como é que eu posso juntar isto? Mais o design, claro. Fiz um bolo e consegui juntar estas áreas. Fui também buscar a arte urbana, porque para mim é uma arte que é expressiva. É a expressão artística da actualidade, é uma arte de que qualquer jovem gosta. É uma coisa muito honesta”, diz. 





O que a arte urbana transmite ou tenta transmitir
Filipa considera que, ao contrário do que acontece na publicidade, na arte urbana os sentimentos são puros, na medida em que aquilo que lá está é aquilo que é. “A cidade tornou-se num texto que por sua vez representa o que a sociedade acredita e defende”, diz Filipa, no texto de apresentação deste projecto. Filipa considera que, na arte urbana, não há ninguém a tentar vender uma ideia. As pessoas acreditam e sentem realmente tudo o que escrevem e começou a ligar-se às fotografias, e a ligar as fotografias a si também, àquilo que ela própria queria ser e ela própria estava a sentir. “O mais engraçado é que eu senti que estas pessoas não são ouvidas. As sociedades que se sentem mais marginalizadas e que sentem que a sociedade não as ouve, são aquelas que mais respondem a isso e são aquelas que mais tendem a criticar aquilo que se passa à nossa volta. Embora também haja muito aquela ideia de fantasia e de sonho, também característica da arte urbana, às vezes uma ilustração só para animar o teu dia. Mas de qualquer das formas as pessoas às vezes sentem que não estão a ser ouvidas e põem a voz delas nas paredes da cidade, porque a cidade é uma galeria sem restrições”, diz.

Tendo as fotografias, faltava um espaço para as ter e para as partilhar. Foi então que criou a página no Facebook, com a ideia de que não poderia ser uma coisa apenas sua mas de outras pessoas também porque, tal como diz Ellen Lupton: “para uma peça ser boa, tem que ter a colaboração do seu público”. Por isso, decidiu que não queria que a página fosse apenas a sua voz mas a voz de todos. A página estava criada, o primeiro passo estava dado, mas e agora?

“Vou fazer um vídeo! Mas um vídeo como? Eu sinto isto assim, eu acho que as pessoas realmente me deviam ouvir. Eu senti que devia dar voz a este projecto para o vídeo porque eu acho que as pessoas iam sentir que é honesto e que o que eu estava a dizer era sincero porque, com umas legendas, não era tão pessoal. Não era tão emocional. E então eu pensei que ia ter a minha voz e já que ia ter a minha voz, então ia ter também o meu corpo”, conta. Mas a cara de Filipa, essa, só se mostra no vídeo nos dois segundos finais e isso tem uma explicação. Filipa considera que não importa quem está a dizer o quê mas sim quem disse e porquê. Incluídas no seu projecto, estão muitas frases cujos autores são conhecidos, como é o caso do Mário de Belém e do Miguel Januário, mas nem sempre isto é possível. Muitas vezes, as frases não estão assinadas, mas para Filipa isso não interessa “ porque aquilo que interessa é a frase e não quem é que disse a frase, e essa parte realmente interessou-me. Então eu disse: vai aparecer a minha voz, e por três segundos vou estar no vídeo, só para que as pessoas perceberem que eu existo, mas não interessa quem é que eu sou”.

Numa brincadeira com o seu próprio apelido, Filipa acabou por dar o nome a este seu projecto. “Obviamente que está ligado ao meu nome, mas não é só isso. É “Já Sinto” de sentimento, no sentido de perceber como é que um sentimento define quem nós somos”, explica. “Há pessoas que dizem que não devemos tornar os nossos trabalhos muito pessoais senão as pessoas não vão ligar-se a isso, e eu ouvi muito essa opinião. A de que não devia ser eu a falar, não devia ser a minha voz nem o meu corpo, nem o meu nome. Mas eu penso que as pessoas de quem eu mais gosto e mais admiro na internet, as páginas e tudo isso, nesses casos, quanto mais pessoal é mais eu gosto”, acrescenta.

Filipa considera que para nos ligarmos ao trabalho de alguém temos de ter o mínimo de background, o mínimo de conhecimento sobre essa mesma pessoa, e só depois então pode haver essa ligação, essa conexão, essa relação com o projecto de gostar, de nos identificarmos e nos revermos nele de alguma maneira. “Isto porque eu sou igual, eu acabo por ser a cliente do meu próprio projecto. E o que é que as pessoas querem? Frases para guardar, frases para ler antes de ir dormir, que é o que eu quero também”, diz.

O sentimento em português
A língua portuguesa é também uma parte importante na descrição e na história deste projecto. Tal como se pode ler no catálogo de apresentação do projecto: “o desejo é saber o que quem sente em Português anda a dizer ao mundo. Agora, através deste projecto, essa ligação das diferentes culturas portuguesas encontram nele a hipótese de se reunir num só lugar”. E é por isto. É por isto que todas as mensagens são em português. Quando Filipa chegou a Portugal, depois da sua estadia no Rio de Janeiro, sentiu saudade, uma palavra que por mais que se tente traduzir para outra língua não se consegue. A língua portuguesa tornou-se então o elo de ligação, que mantinha próximo o que estava longe e que permitia também quebrar muitas das barreiras de separação para quem está fora do país, nas mais variadas zonas do mundo. Porque, não se baseando só nos países da língua portuguesa, como o Brasil e Portugal, Filipa quis descobrir até onde chegavam estas mensagens, escritas em português: “Eu encontrei uma frase portuguesa no Chile, e pensei que, se encontrei uma frase portuguesa no Chile, então, se calhar, há uma frase em português na Índia ou no Japão, não sei, é isso que estou a tentar descobrir com este projecto”.

“As ilustrações tipográficas são o cérebro deste projecto”
Sendo a parte do projecto em que são aplicados os conhecimentos de tipografia mas também de design, onde Filipa imprime o seu cunho pessoal, as ilustrações tipográficas mostram-nos letras sempre diferentes umas das outras - e, para isso, há uma razão. “Foi muito difícil para mim dar uma imagem só às minhas ilustrações. Como é que eu podia fazer uma coisa que tinha só uma cara quando eu estava a falar de países diferentes, pessoas diferentes, culturas e vozes diferentes?”.

E foi então que Filipa, partindo da ideia de que as diferentes letras representavam as diferentes vozes, decidiu dar voz a mais pessoas, sendo todas diferentes mas com algo em comum, algo que as une. Quando começou a desenhar, começou então a tentar fazer letras diferentes e a juntá-las. Hoje, considera que o “Já Sinto” é uma marca mutável, que se aplica às novas tipografias que vão surgindo. Nas ilustrações, pode até notar-se esta diferença. As primeiras ilustrações tipográficas feitas por Filipa nada têm a ver com as últimas, e estas por sua vez serão com certeza diferentes das próximas. Há uma evolução, uma procura de letras novas.




Gentileza gera gentileza
As frases incluídas neste projecto são submetidas a uma espécie de selecção, uma vez que costumam ser muito positivas: “Tenho algumas de sensibilização, mas normalmente sou mais de uma onda mais positiva, mais de amor, mais de gentileza, porque tem muito a ver com o meu início e com tudo o que eu vivi no Brasil. Eu gosto muito mais dessa parte, é o melhor que nós temos e eu queria mesmo chamar à atenção para isso, conseguir pôr um sorriso na cara das pessoas”.



E tem conseguido. O feedback que tem recebido por parte das pessoas é muito positivo e até já há ideias para desenvolver no futuro. “Houve pessoas que me perguntaram onde é que eu ia pôr à venda os meus catálogos. Eu não fiz os catálogos para pôr à venda. Agora inicialmente, fiz para dar às pessoas na exposição. Mas é engraçado como eu estou a começar a ter o interesse das pessoas em se calhar haver um livro ou um catálogo do “Já Sinto”, ou mesmo os posters. E isso é uma coisa que eu não comecei este projecto com essa ideia, com esse intuito, com essa intenção, mas claro que adoro o facto de as pessoas estarem interessadas nisso e tenho recebido imensas mensagens de pessoas a dizer que adoram o conceito”, afirma.

Seguindo esta máxima de que “gentileza gera gentileza”, Filipa está sempre a querer saber a opinião das pessoas que acompanham o seu projecto. “Receber feedback é importante no sentido de perceber a direcção do público em relação ao projecto, porque o público está comigo a fazer a direcção da corrente, eu não quero fazer isto completamente sozinha. A frase “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, do Fernando Pessoa, é o início da minha tese e eu realmente sinto isso, eu queria dar voz a todos os sonhos das pessoas”, explica.




A exposição
O projecto Travessa da Ermida, situado na Travessa do Marta Pinto, em Belém, é um projecto cultural inovador, destinado a ocupar um lugar de referência na cidade de Lisboa, em geral, e no bairro de Belém, em particular. Filipa teve conhecimento deste espaço dedicado à divulgação de novos projectos através de uma amiga e apresentou o seu projecto ao responsável pelo espaço. 

Depois de a proposta ter sido aceite, começaram todos os preparativos. Para juntar aos posters, a o catálogo de divulgação do projecto, com todas as frases nele incluídas até agora, Filipa fez ainda umas folhas com o início das suas frases para que, durante a exposição, as pessoas pudessem completá-las e dar-lhes novos sentidos. “As pessoas escreveram as suas próprias frases, e eu própria hei-de desenhar algumas dessas frases que as pessoas escreveram”, conta.

Para além da exposição dos seus posters, que ocorreu nos dias 24 e 25 de Outubro, e da exibição do seu vídeo, que pode também ser visto na sua página do facebook deste projecto, e onde se pode acompanhar também todas as novidades que vão surgindo, foi ainda pintada na fachada do número 21 da Travessa do Marta Pinto a frase-chave deste projecto: “Vive, aprende e passa a mensagem”, que pode ser visitada até Fevereiro de 2016 por quem já sente ou ainda queira sentir.



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